Fracasso

Publicado: abril 26, 2011 em Uncategorized

Um homem sentou no banco mais sujo da praça
Estava embriagado e cansado.
Era outono, mas sem folhas
Não ventava como de costume
Estava calado como uma pedra,
e quem sabe andou chorando nos últimos minutos.

Não estava totalmente sozinho,
se não fosse por um vira-lata magro cinzento
Que veio mijar em seu banco
Mas o homem e o cachorro se encaixavam no cenário
Um completava o outro numa madrugada taciturna
Que sabe-se-lá quanto ia durar.

Um violão seria imprestável
naqueles dedos tímidos e sem dom,
uma folha de papel pra uma poesia,
ou uma carta, ou um desenho,
não sabes escrever, e não tem a quem escrever
O cérebro está dormente,
O coração quase parou de bater,
as lembranças ficam como um defunto.

Não se sabe, do que sofria o homem
Não precisa saber, não te interessa,
não interessa nem a mim.
Todo mundo já quis morrer um dia,
Mas agora a bebida já entrou,
Ele ficou sonolento e acabou dormindo no banco
O vira-lata se sentiu menos só.

Mas não é isso que mata,
não é a bebida ou a solidão,
nem os olhos tristes do homem.
O que mata é saber que tem gente
que dorme e não levanta.
Fica digerindo o fracasso.
Não se trata de profecia,
e nem de uma história de um milionário que já foi pobre.
E nem um livro podre de auto-ajuda
Nem de merda nenhuma.

É que raiou o dia,
e o homem ainda não levantou.

(Samira Assis)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s