Fracasso

Publicado: abril 26, 2011 em Uncategorized

Um homem sentou no banco mais sujo da praça
Estava embriagado e cansado.
Era outono, mas sem folhas
Não ventava como de costume
Estava calado como uma pedra,
e quem sabe andou chorando nos últimos minutos.

Não estava totalmente sozinho,
se não fosse por um vira-lata magro cinzento
Que veio mijar em seu banco
Mas o homem e o cachorro se encaixavam no cenário
Um completava o outro numa madrugada taciturna
Que sabe-se-lá quanto ia durar.

Um violão seria imprestável
naqueles dedos tímidos e sem dom,
uma folha de papel pra uma poesia,
ou uma carta, ou um desenho,
não sabes escrever, e não tem a quem escrever
O cérebro está dormente,
O coração quase parou de bater,
as lembranças ficam como um defunto.

Não se sabe, do que sofria o homem
Não precisa saber, não te interessa,
não interessa nem a mim.
Todo mundo já quis morrer um dia,
Mas agora a bebida já entrou,
Ele ficou sonolento e acabou dormindo no banco
O vira-lata se sentiu menos só.

Mas não é isso que mata,
não é a bebida ou a solidão,
nem os olhos tristes do homem.
O que mata é saber que tem gente
que dorme e não levanta.
Fica digerindo o fracasso.
Não se trata de profecia,
e nem de uma história de um milionário que já foi pobre.
E nem um livro podre de auto-ajuda
Nem de merda nenhuma.

É que raiou o dia,
e o homem ainda não levantou.

(Samira Assis)

Dreams, dreams…

Publicado: abril 1, 2011 em Uncategorized

Longos caminhos no escuro através de madeiras cultivadas por trás do parque, perguntei a Deus, quem eu costumava ser. As estrelas sorriram para mim, Deus respondeu em um devaneio silencioso. Eu disse uma oração e adormeci.
.
Eu tinha um sonho
De que eu poderia voar da mais alta árvore
Eu tinha um sonho
(Priscilla Ahn)

Mar Português

Publicado: março 14, 2011 em Uncategorized

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

 

(Fernando Pessoa)

Chanson pour dimanche

Publicado: março 8, 2011 em Uncategorized

Vem, contempla esse branco infinito
e vem, ora, questionar-se sobre a eternidade
Se houver uma fresta nessa janela
Verás que ainda é domingo
E o céu de domingo se difere dos outros dias da semana.

Porque o céu de domingo se estende
em tantas cores que desconheço,
verás que é angustia e tormento
enquanto a perplexidade de nossa íris
se retém inconformado

Não há vida nem morte por hora
Deus tira folga no domingo
Essa crua paisagem, despe-se sem obscenidade
até vir um pintor ou um poeta
e salva-lo do anonimato

Vem, contempla essa ardência enfática
onde o céu é um fogo brando
que se desdobra em mil cores
e desperta-se de um sonho tolo

Vem, ora, que domingo tem um fim
quando não se vê mais nenhuma mancha no céu
e a tristeza por hora invadir o peito
Não serás mais domingo,
Não serás mais enfim.

Diferença

Publicado: março 7, 2011 em Uncategorized

“Você que tanto queria se destacar dentre as milhões de faces vazias, quanto mais tenta, mais igual a elas fica. Você que quis tanto ser diferente, ouvir músicas desconhecidas, e vestir-se como mais queria, não consigo entender por que cada dia que passa, vejo-te como uma sombra amarga e fria. Pior ainda: semelhante a um todo. A um pobre e generalizado todo, do qual nunca se identifica.”

Je m’appelle Samira

Publicado: março 7, 2011 em Uncategorized

Eu sou Samira, poderia ser outra pessoa mas não sou.
Ando meio solitária, mas isso foi tão comum na minha vida.
Sou dramática ao extremo, e aprendi a gostar do jeito que meu nome soa.
E confesso que gosto quando as pessoas dizem que tenho cara de árabe.
Eu toco piano, e as vezes acho que as notas bemóis se parecem comigo.
Eu gosto de ler, gosto de reclamar, gosto de acordar cedo.
Sonho demais, penso demais, me preocupo demais.
Eu tenho um mundo platônico e penso que isso é ridiculo.
Gostaria de subir em um palco e tocar piano sem errar uma nota, e fazer com que os aplausos demorem a cessar.
Sonho em alcançar Paris, não mais do meu quarto, não mais da minha mente.
Gostaria de sentir o gosto da neve.
Tenho medo de liquidificador, tomadas e estátuas de Buda.
E o que mais me deixa feliz é sentar na beira da praia e ouvir o som que as ondas fazem.
Meu pior defeito é agressividade e impulsividade.
Tenho vontade de beijar um capricorniano.
Tenho medo e encantamento por trovões, algo que não sei explicar se é bom ou ruim.
Compus uma música no piano, minha irmã gosta, mas tenho vergonha da minha música. Não sei por que.
Uma qualidade que tenho é criatividade. E as vezes sinto ela ausente.
Dizem que sou talentosa, porque toco piano, escrevo, desenho, fotografo…Mas talento não é inteligência, logo continuo me achando burra.
Gosto mais de ficar e deixar tudo sumir ao vento. Amor não é pra mim.
Não gosto de Carnaval e da cultura brasileira.
Não gosto da minha cidade, e me sinto perdida.
Eu gosto de cantar, apesar de não cantar bem.
Uma das maiores dores da minha vida foi ter perdido um pai.
Eu não me arrependo muito do que faço, prefiro não pensa-las, mas fico a me corroer por dentro quando deixo uma oportunidade passar.
Gosto de homens com barba. Gosto de perfume doce.
Eu não entendo matemática. Não mesmo.
A parte do corpo que mais gosto em mim, são as pernas e os meus dentes.
Finjo ter auto-estima elevada.
Não encararia uma cirurgia pra mudar algo no meu corpo.
As pessoas dizem que sou antipática.
Odeio cerveja. Odeio sertanejo universitário.
Odeio tanta coisa.
Na mesma medida que amo.
Não sei cozinhar, não sei vomitar, não sei dar conselhos
Gosto de chuva, e gosto de caminhar no frio.
Bati na professora quando eu estava no primário.
Tenho sonhos incrivelmente bizarros.
E uma lista de sonhos que não acabam nunca.

Eu sou Samira, e nunca deixo de pensar que poderia ser outra pessoa, poderia ter outro nome, poderia ser mais magra e bonita, poderia ser mais inteligente.

mas de alguma forma, felizmente não sou.

Every ship must sail away

Publicado: março 2, 2011 em Uncategorized

“Os anos passam e as pessoas mudam
Um céu azul poderia virar cinza
Isso vai machucar agora
Cada navio deve navegar para longe
Cada navio deve navegar para longe”
(Blue Merle)